 |
Coluna
(Edição nº 14)
"Velocidade
e aceleração enquanto
estimulantes modernos",
por Rogerio
Lopes Azize
“Podemos
legitimamente afirmar que o relógio indica o tempo, mas ele o faz através
de uma produção contínua de símbolos que só têm significação num
mundo em cinco dimensões, num mundo habitado por homens...”. (Elias,
1998:16,) Em colocações como esta, ELIAS chama a nossa atenção
para o caráter tão pouco natural que possuem as noções de tempo,
velocidade e aceleração na cultura ocidental moderna. Poderíamos dizer
que na natureza o tempo passa,
enquanto que para nós tempo é algo que se pode perder, ganhar, acelerar,
reduzir e até controlar. Relógios não têm vida própria; o que eles
marcam não é nada senão o nosso tempo, o nosso ritmo, o nosso devir.
Continuando com Elias, “o tempo tornou-se, portanto, a representação
simbólica de uma vasta rede de relações que reúne diversas seqüências
de caráter individual, social ou puramente físico”. (idem:17)
Quando
o tempo passa a ser algo que se tem,
cresce a responsabilidade de uma cultura (e dos indivíduos que estão
inseridos neste código de linguagem) quanto ao que se faz em relação ao
tempo. O freio e o acelerador são opções culturais. Sendo assim, creio
que seria possível dizer muito sobre um grupo humano analisando aquilo
que chamamos ‘ritmo de vida’. Como veremos, com a ajuda de algumas idéias
de VIRILIO,
velocidade e aceleração são palavras que podem ter também profundas
implicações políticas.
Sendo
então as noções de velocidade e aceleração (que, aliás, são de difícil
conceituação) absolutamente contingentes, não naturais, tentarei propor
aqui algo semelhante àquilo que SCHNAPP chamou de uma Antropologia
da Velocidade. “Uma ‘antropologia’ (da velocidade) na medida em
que se pode imaginar o movimento acelerado não como um evento físico
neutro que deixava inalterados o viajante e o percurso viajado”
(Schnapp,1998), mas como um evento que se insere em um contexto cultural,
transformando-o e sendo transformado por ele. Virilio (1996) também se
faz perguntas neste sentido: “onde estamos quando viajamos? Qual é esse
‘país da velocidade’ que nunca se confunde exatamente com o meio
atravessado?”.
A velocidade enquanto estimulante produtor de distinção
Em seu livro Velocidade e Política,
Virilio reflete sobre a existência de uma ‘aristocracia da
velocidade’, que se constitui para dominar um novo espaço, o não-lugar
ou o lugar das viagens, o lugar da velocidade e da aceleração. No prefácio,
Laymert Garcia dos Santos nos apresenta o tom da obra: o livro seria
“uma introdução à lógica da corrida, à lógica que toma como referência
absoluta, como equivalente geral, não mais a riqueza e sim a
velocidade”.
Esta
opção de Paul Virilio implicaria em uma releitura da história do
ocidente; a velocidade, e o domínio sobre os processos de aceleração,
passariam a ser a grande commoditie,
uma nova referência para a criação de distinções. Diz ele que,
tornando-se a medida, a velocidade passa a dividir o mundo em povos
esperançosos (que capitalizam a velocidade o suficiente para
continuarem projetando-a infinitamente) e povos
desesperançosos (imobilizados pela inferioridade de seus veículos técnicos).
Além destes tipos ideais, úteis como categoria de análise, interessa-me
nesta autor a maneira como ele apresenta “os efeitos que o investimento
na velocidade tecnológica provoca nos corpos”. O objetivo (do autor) é
mostrar como “a lógica da corrida, desinvestindo da terra e do mundo, e
investindo progressivamente no vetor, promove um verdadeiro assalto à
natureza humana”. (Virilio, 1996:12) Esta dicotomia criada por Virilio
entre povos esperançosos e desesperançosos vai criar novas dicotomias
internas aos povos e às culturas. Para ele, a progressiva
desterritorialização provocada pela emergência desta lógica de corrida
é sentida de maneiras diferentes pelas diferentes classes sociais: para
as elites, significaria uma intensificação do domínio, já que elas
controlariam o vetor, o processo de aceleração, sobrevivendo em diversos
ritmos; para as massas, significaria “desenraizamento, destruição do hábitat,
privação de identidade, exclusão, perda do anima,
do movimento”. Quando a velocidade passa a ser uma das principais commodities
modernas, como disse Virilio, ela passa a ser identificada como um
elemento civilizador.
Neste
mundo onde a velocidade e o movimento destróem o tempo e onde “o humano
fica subjugado à vertigem da aceleração”, Virilio propõe a criação
de uma dromologia, uma espécie
de ciência da velocidade e da aceleração. Mas qual seria o homem objeto
de estudo desta dromologia?
Schnapp
oferece-nos uma possível resposta para a pergunta acima quando fala em um
sujeito humano (moderno) da velocidade, ao qual ele dará o nome de sujeito
kinemático. Este sujeito tem a sua origem situada no início do século
XIX, quando ocorre “uma bifurcação fundamental entre os modos de
transporte de massa e os de transporte individual, tanto nas experiências
e fantasias a que eles deram origem como nos tipos de discursos que são
elaborados para regulá-los e representá-los”.(pag. 2) Para este autor,
o individualismo moderno se confunde “com a posse de e o poder sobre
rodas”, com a posse do poder sobre a velocidade e a aceleração. Uma
outra hipótese apresentada por Schnapp é a de que quando a tecnologia
passa a forjar mecanismos de separação “entre a superfície viajada, a
força de propulsão e o viajante individual”, torna-se possível
imaginar a velocidade como um tipo de droga, como um dos principais
estimulantes modernos.
A
velocidade vai exigindo doses mais e mais fortes para continuar causando
sensações de prazer em seus usuários. É neste momento que, de forma
paradoxal, a velocidade enquanto vetor dá origem a um círculo vicioso:
“uma vez reconfigurado pelas repetidas experiências desse estimulante,
(o sujeito kinemático) encontrava-se (...) ameaçado, por um lado, pela
monotonia, e, por outro, pela necessidade eterna de um novo estímulo a
fim de manter o mesmo nível de intensidade”.
Como
a velocidade estaria sempre pedindo um espectador, seríamos nós todos
candidatos a voyeurs modernos,
assistindo e vivendo a aceleração como o principal espetáculo disponível,
a partir de diferentes pontos referenciais, que podem ir desde o nosso próprio
corpo
até o grande fetiche dos meios de transporte supersônicos.
Voltando
a Virilio, podemos dizer que o homem não sai impune deste processo de
aceleração. Depois de afirmar ser a arte da guerra nada mais que uma
arte do espetáculo e da velocidade, diz ele que “a velocidade dromocrática
não se exerce contra um adversário mais ou menos determinado; ela se
exerce como um assalto permanente ao mundo e através dele,
como um assalto à natureza do homem”. (op. cit.: 69)
E ele volta a insistir em uma polaridade que será causada pelo domínio
ou não deste mundo da velocidade. “O progresso dromológico, ao impor o
idéia de dois tipos de alma, umas fracas, indecisas e vulneráveis porque
tributárias do seu hábitat, outras poderosas porque colocaram seu
‘mana’, sua vontade, fora de alcance, graças a sua desterritorialização,
à sofisticação da sua economia e de seu ponto de vista”.
Quanto
às conseqüências de tomar a aceleração como um estimulante, a
perspectiva de Schnapp também não me parece nada otimista. Para ele,
este mundo da velocidade pode vir a se mostrar um beco sem saída. A sensação
repetida inúmeras vezes teria um ponto de saturação, não renovado nem
com o acidente (que ele analisa como um corolário da velocidade e da
aceleração). O possível resultado disto, “o Manifesto de Fundação
do Futurismo não poderia jamais ter imaginado: a emergência do tédio
mesmo como a maior excitação de todas”. (op. cit.: 13)
Bibliografia
ELIAS, Norbert.
Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1998.
SCHNAPP,
Jeffrey. Crash: antropologia da
velocidade. Comunicação apresentada no VI Congresso da ABRALIC
(Associação Brasileira de Literatura Comparada), Florianópolis, 1998.
VIRILIO, Paul. Velocidade e Política.
São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
|