Coluna
(Edição nº 12)
Quando
afirmamos isso fazemos referência a um cinema que desenvolva uma linguagem
aberta, sem restrições de regras ou objetivos comerciais. O cinema etnológico
reflete sobre a condição humana, tem em foco seu modo de existir, seu ethos,
em suma seus estilos de vida: estética e ética da vida humana.
Vem
a nossa lembrança um outro excelente exemplo, que é a produção do
filme brasileiro Nós que aqui estamos,
por vós esperamos (1999) de Marcelo Marsagão. Filme que é um fragmento
de memória áudiovisual sobre o século XX, a partir de recortes biográficos
reais e ficcionais de pequenos e grandes personagens que viveram neste século.
Este é o mais recente exemplo de como se pode pensar em modos diferentes
de fazer cinema com criatividade e imaginação.
Pensamos
num cinema como um verdadeiro museu
imaginário, num mundo e numa sociedade que se transformam numa
velocidade cada vez alucinada e vertiginosa. Lembramos novamente de Win
Wenders, quando cita Paul Cézanne:
Isto
está mau. Temos de nos apressar, se ainda queremos ver alguma coisa. Tudo
está prestes a desaparecer (p.40).
A
análise aqui sugerida tem ainda muitas fontes de inspiração, mas se
liga muito intimamente na proposta de Gilbert Durand (1995:46), que
defende, em palavras precisas, o quanto é urgente e necessário enfrentar
o esvaziamento do sentido, atualmente presente nas sociedades ocidentais.
Sugere isso através do que chama de uma nova prenhez
simbólica no processo de produção, distribuição e consumo das
imagens. Podemos dizer que trata-se de uma resposta patafísica
à avassaladora proliferação de imagens insignificantes
que se manifesta hodiernamente nas sociedades industriais e pós-industriais.
O cinema antropológico autêntico poderá servir como esse veículo, isto é, um novo
agente de animação da cultura e da arte brasileira. Esse movimento
antecipa uma síntese mais significativa do que tem sido desajeitadamente
chamado de filme etnográfico, ou de documentários etnográficos,
repletos de convencionalismo e conformismo. Em suma, é preciso mais
criatividade e imaginação!
Oxalá, tenha eco estas palavras utopistas!
Bibliografia
CORRÊA, Alexandre
Fernandes. Vilas, parques, bairros e
terreiros: novos patrimônios na cena das políticas culturais. São
Luís: EDUFMA. 2003
DURAND, Gilbert.
Imaginação simbólica. São Paulo: Cultrix. 1988
____. A
fé do sapateiro. Brasília: UNB. 1995
____. O
imaginário. Rio de Janeiro: Difel. 1999
FLUSSER, Vilém. A
filosofia da caixa-preta. São Paulo: HUCITEC, 1985
____.
Ficções filosóficas. São Paulo: EDUSP, 1998b
LEMINSKI,
Paulo. Jarry, supermodertno In,
JARRY, Alfred. O Supermacho. São Paulo: Brasiliense.1985.
WENDERS, Win. A
lógica das imagens. Lisboa: Edições 70. 1990
Notas
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