Coluna (Edição nº 10)
"O que você gostaria de saber sobre a Antropologia. O que é Antropologia? O que fazem os antropólogos?", por Alexandre Fernandes Corrêa (*)

Tentaremos resumir a situação atual da antropologia introduzindo o leigo na incrível viagem na unidade e variabilidade do homem no espaço e no tempo. Os quatro pontos cardeais desta aventura: anthropos, do animal humano ao homem social; oikos, o meio, a técnica e a governação da riqueza; krathos, o poder, a política e a jurística; mythos, a atividade simbólica e o mundo imaginário.

Boa aventura!

A ciência que estuda as culturas humanas é chamada antropologia.

É uma disciplina que investiga as origens, o desenvolvimento e as semelhanças das sociedades humanas assim como as diferenças entre elas. A palavra antropologia deriva de duas palavras gregas: anthropos, que significa "homem" ou "humano"; e logos, que significa "pensamento" ou "razão". Os antropólogos comumente investigam as formas de desenvolvimento do comportamento humano, objetivando descrever integralmente os fenômenos sócio-culturais.

Os Campos de Estudo da Antropologia

A ciência antropológica é comumente dividida em duas esferas principais: a antropologia biológica (ou física) e antropologia cultural (ou social)
1. Cada uma delas atua em campos de estudo mais ou menos independentes, pois especialistas numa área freqüentemente consultam e cooperam com especialistas na outra área.

A antropologia biológica é geralmente classificada como uma ciência natural, enquanto a antropologia cultural é considerada uma ciência social. A antropologia biológica, como o nome já indica, dedica-se aos aspectos biológicos dos seres humanos. Busca conhecer as diferenças ditas raciais e étnicas, a origem e a evolução da humanidade. Os antropólogos desta área de conhecimento estudam fósseis e observam o comportamento de outros primatas.

A antropologia cultural dedica-se primordialmente ao desenvolvimento das sociedades humanas no mundo. Estuda os comportamentos dos grupos humanos, as origens da religião, os costumes e convenções sociais, o desenvolvimento técnico e os relacionamentos familiares. Um campo muito importante da antropologia cultural é a lingüística, que estuda a história e a estrutura da linguagem. A lingüística é especialmente valorizada porque os antropólogos se apóiam nela para observar os sistemas de comunicação e apreender a visão do mundo das pessoas. Através desta ciência também é possível coletar histórias orais do grupo estudado. História oral é constituída na sociedade a partir da poesia, das canções, dos mitos, provérbios e lendas populares.

A antropologia cultural e biológica conectam-se com outros dois campos de estudo: a arqueologia e a antropologia aplicada. Nas escavações, os arqueólogos encontram vestígios de prédios antigos, utensílios, cerâmica e outros artefatos pelos quais o passado de uma cultura pode ser datado e descrito (pesquisar Arqueologia).

A antropologia aplicada, com base nas pesquisas realizadas pelos antropólogos, assessora os governos e outras instituições na formulação e implementação de políticas para grupos específicos de populações. Ela pode, em certa medida, ajudar governos de países em desenvolvimento a superarem as dificuldades que as populações destes países enfrentam no embate com a complexidade dos fluxos civilizacionais do século 21. E pode também ser usada pelos governos na formulação de políticas sociais, educacionais e econômicas para as minorias étnicas no interior de suas fronteiras. O trabalho da antropologia aplicada é freqüentemente desenvolvido por especialistas nos campos da economia, da história social e da psicologia.

Pelo fato da antropologia explorar amplo conjunto de disciplinas, investigando diversos aspectos em todas as sociedades humanas, ela deve apoiar-se nas pesquisas feitas por estas outras disciplinas para poder formular suas conclusões. Dentre as disciplinas mais afins encontramos a História, Geografia, Geologia, Biologia, Anatomia, Genética, Economia, Psicologia e Sociologia, juntamente com as disciplinas altamente especializadas como a lingüística e a arqueologia, anteriormente mencionadas.

O Problema das Terminologias

Diferentes termos são usados para descrever os campos da antropologia nos EUA e na Europa, como já foi referido. Enquanto nos EUA o termo antropologia é usado mais amplamente, na Europa é mais comum o termo Etnologia
2. O que é chamado de "antropologia cultural" nos EUA é designado como "Etnologia" em diversos países da Europa Continental. No entanto, o termo antropologia biológica (ou física) é usado em vários países do Mundo.

As subáreas da antropologia cultural nos EUA são três: antropologia histórica (etnologia), pré-história (ou arqueologia pré-histórica) e lingüística (ou antropologia lingüística). Na Europa as subáreas são: etnologia (descrição histórica e comparada das "raças"), pré-história (ou etnologia pré-histórica) e lingüística (ou etnologia lingüística).

No Brasil encontramos um misto das duas tradições referidas. No Nordeste do país, temos uma tradição mais vinculada a antropologia cultural norte-americana, principalmente devido a influência de Gilberto Freyre, que estudou em Colúmbia nos EUA com Franz Boas. No Centro-Sul do país há um predomínio da nomenclatura britânica: antropologia social (USP, UNB, Museu Nacional/UFRJ, etc.). Mas isso não demarca as atuais influências e hegemonias teóricas.

Etnografia, Etnologia e Antropologia

Uma tentativa de universalização do significado dos termos pode ser encontrada na obra do antropólogo francês Claude Lévi-Strauus Antropologia Estrutural. Sua proposta é a seguinte:

A etnografia - corresponde aos primeiros estágios da pesquisa: observação e descrição, trabalho de campo (field-work). Uma monografia, que tem por objeto um grupo suficientemente restrito para que o autor tenha podido reunir a maior parte de sua informação graças a uma experiência pessoal, constitui o próprio tipo do estudo etnográfico.

A etnologia - representa um primeiro passo em direção à síntese. Sem excluir a observação direta, ela tende para conclusões suficientemente extensas paea que seja difícil funda-las exclusivamente nem conhecimento de primeira mão. Esta síntese pode operar-se em três direções: a) geográfica, quando se quer integrar conhecimentos relativos a grupos vizinhos; b) histórica, quando se visa reconstituir o passado de uma ou várias populações; c) sistemática, enfim, quando se isola, para lhe dar uma atenção particular, determinado tipo de técnica, de costume ou de instituição. A etnologia compreende a etnografia como seu passo preliminar, e constitui seu prolongamento. É o que encontramos tanto no Bureau of American Ethnology da Smithsonian Instituion, como na Zeitschritft für Ethnologie ou no Institut d`ethnologie de L`Université de Paris.

Em toda parte onde encontramos os termos antropologia cultural ou social, eles estão ligados a uma segunda e última etapa da síntese, tomando por base as conclusões da etnografia e da etnologia. Nos países anglo-saxônicos, a antropologia visa um conhecimento global do homem, abrangendo seu objeto em toda sua extensão histórica e geográfica; aspirando a um conhecimento aplicável ao conjunto do desenvolvimento humano desde, digamos, os hominídeos até as raças modernas, e tendendo para conclusões, positivas ou negativas, mas válidas para todas as sociedade humanas, desde a grande cidade moderna até a menor tribo melanésia. Pode-se, pois, dizer, neste sentido, que existe entre a antropologia e a etnologia a mesma relação que se definiu acima entre esta última e a etnografia.

Por fim, Lévi-Strauss escreve: etnografia, etnologia e antropologia não constituem três disciplinas diferentes, ou três concepções diferentes dos mesmos estudos. São, de fato, três etapas ou três momentos de uma mesma pesquisa, e a preferência por este ou aquele destes termos exprime somente uma atenção predominante voltada para um tipo de pesquisa, que não poderia nunca ser exclusivo dos dois outros.

Ver Antropologia Biológica (Física), Antropologia Social e Cultural, Teorias e Escolas: Evolucionismo, Funcionalismo, Estruturalismo, Culturalismo, etc.

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NOTAS:

1 - A preferência por uma ou outra nomenclatura depende da tradição teórica do país. Por exemplo, o que se faz em nome da antropologia cultural nos EUA, na França se reconhece como Etnologia e na Grã-Bretanha como Antropologia Social.
2 - A Etnologia é definida como a ciência que estuda as heranças biológicas (ditas raciais), costumes e línguas da humanidade, isto é, suas características, suas origens, diferenças e distribuição espacial.


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PROGRAMA BÁSICO DE INTRODUÇÃO A ANTROPOLOGIA GERAL NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

Observação: Ainda não há cursos de graduação na maioria das Universidades Brasileiras. O mais comum são disciplinas em Cursos de Ciências Sociais ou Sociologia. É a mesma situação da Ciência Política, que exige que a profissionalização se concretize em cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado).

DEPARTAMENTO E CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DISCIPLINA: ANTROPOLOGIA I CH - 60 HORAS 4 CRÉDITOS.

EMENTA:

A antropologia como saber científico: campos de estudo. A Antropologia como estudo do outro: diversidade e relativismo cultural; o estudo da totalidade. Etnografia: o trabalho de campo como metodologia, o observador e o objeto de estudo. A noção de evolução como princípio articulador. Críticas ao método evolucionista.


OBJETIVOS:

A - Compreender o que é a Antropologia e quais são seus principais pensadores e pesquisadores;
B - Analisar a sociedade a partir de uma abordagem antropológica da realidade;
C - Compreender o processo de construção do objeto de estudo da Antropologia.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:

Unidade I.
A - O lugar da Antropologia nas Ciências Sociais(3 aulas).
B - Campo e abordagem da Ciência Antropológica(3 aulas).

Unidade II.
A - Para uma história do pensamento antropológico(8 aulas).
B - A Etnologia: mistificações e desmistificações(4 aulas).

Unidade III.
A - As principais tendências do pensamento antropológico contemporâneo(5 aulas).
B - A especificidade da prática antropológica: a etnografia e o trabalho de campo(7 aulas).

PROCEDIMENTOS DE ENSINO:

Aulas expositivas, leituras de textos teóricos básicos e de pesquisas sobre temas do curso. Seminários e debates sobre os temas abordados.

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO:

Participação nas aulas, seminários e trabalho final de aproveitamento do conteúdo integral da disciplina.

BIBLIOGRAFIA EM LÍNGUA PORTUGUESA:

AZEVEDO, Paulo Roberto.
1986. Antropólogos e pioneiros. Ed. USP. São Paulo.
BEATTIE, J.
1971. Introdução à antropologia social. Ed. Nacional. São Paulo.
COPANS, Jean(Org.).
1971. Antropologia. Ed. 70. Lisboa.
DAMATTA, Roberto.
1987. Relativizando. Ed. Rocco. Rio de Janeiro.
EVANS-PRITCHARD, E.E.
1978. Antropologia Social. Ed. 70. Lisboa.
KLUCKHOHN, Clyde.
1949. Antropologia. Ed. F.C.E. México.
LAPLANTINE, François.
1988. Aprender antropologia. Ed. Brasiliense. São Paulo.
LÉVI-STRAUSS, Claude.
1975. Antropologia estrutural. Ed. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro.
SHAPIRO, H.L.
1966. Homem, cultura e sociedade. Ed. Fundo de Cultura. Rio de Janeiro.
THOMAS, Louis-Vicent.
1981. Etnologia. Texto contido no livro de François Châtelet: A filosofia das ciências sociais.
Ed. Zahar. Rio de Janeiro.
VARELA, Maria Helena et alli.
1982. Antropologia: paisagens, sábios e selvagens. Ed. Porto. Porto.
ZALUAR, Alba.
1986. Desvendando máscaras sociais. Ed. Francisco Alves. Rio de Janeiro.


BIBLIOGRAPHY FOR ANTHROPOLOGY
(Bibliografia em língua inglesa):

Alland, Alexander, Jr. To Be Human (Random, 1981).
Benedict, Ruth. An Anthropologist at Work (Greenwood, 1977).
Benedict, Ruth. Patterns of Culture (Houghton, 1989).
Boas, Franz. Race, Language and Culture (Univ. of Chicago Press, 1988).
Campbell, Bernard. Humankind Emerging, 4th ed. (Scott Foresman, 1985).
Coon, C.S. and others. Races: A Study of the Problem of Race Formation in Man (Greenwood, 1981).
Coon, C.S. The Story of Man, 2nd rev. ed. (Knopf, 1962).
Fisher, M.P. Recent Revolutions in Anthropology (Watts, 1986).
Foster, G.M. and others. Medical Anthropology (Random, 1978).
Gregor, A.S. Life Styles: An Introduction to Cultural Anthropology (Scribner, 1978).
Haviland, William. Cultural Anthropology, 5th ed. (Holt, 1987).
Johanson, Donald and Maitland, Edey. Lucy: The Beginnings of Humankind (Warner, 1982).
Jolly, Clifford, ed. Early Hominids of Africa (St. Martin, 1978).
Malinowski, Bronislaw. Scientific Theory of Culture (Univ. of N.C. Press, 1944).
Mead, Margaret. Coming of Age in Samoa, reprint (Morrow, 1971).
National Geographic Society. Primitive Worlds: People Lost in Time (National Geographic, 1973).
Steward, J.H. Theory of Culture Change (Univ. of Ill. Press, 1972).
White, L.A. The Concept of Cultural Systems: A Key to Understanding Tribes and Nations (Columbia Univ. Press, 1975).


(*) Alexandre Fernandes Corrêa é professor adjunto em Antropologia no DEPSAN/UFMA e doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP.
 

 

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