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Coluna (Edição
>> set 2000)
"Breves
Reflexões
sobre Nova Era e Reconfiguração Societária", por Léa
Freitas Perez (*)
O fim de século, isto
é, a transição de milênio, é um ótimo pretexto para pensar a
reconfiguração dos quadros da vida social. Afinal, o fim do milênio
não aparece — direta ou indiretamente — vinculado ao começo de
uma nova era? E nova era não significa nova vida? Essa nova era, por
tantos decantada e esperada, parece estar se gestando sob o signo da
pluralidade social, do trânsito cultural, da estetização da vida
quotidiana. Parece ser pautada pela predominância das imagens, do
simulacro, do virtual, do liminar, das intensidades vivas de
percepções, das figurações dos sentidos e da epifanização do
corpo. O mundo volta a ser reencantado, o que vale dizer que sua
experimentação, antes de ser objeto de reflexão e instrumento de
intervenção, é um espetáculo plurívoco, no qual são acentuados o
afetivo e o sensível.
Nesse novo tempo sim,
pois a mudança do milênio nos acena para um outra configuração —
mesmo que exclusivamente metafórica — da duração, na qual os
principais indicadores parecem ser a hibridização/a mestiçagem de
códigos. Isto é, os novos tempos parecem indicar o fim do primado
dos grandes sistemas unitários de explicação e dos grandes projetos
políticos e sociais homogeneizadores. O coletivo fragmentado, mutante,
plástico, passa a ser o eixo da vida social. Trata-se, portanto, de
uma nova combinatória social, que supõe, na base, uma multiplicidade
de estilos de vida e de grupos afinitários, para os quais o laço
social se constitui a partir da experimentação de múltiplas
situações e ocorrências e de um investimento passional transitório.
Assim, o elemento dinâmico do sistema não é mais o conjunto formado
pelos indivíduos e suas associações contratuais racionais, mas o
das plêiades de comunidades emocionais — as tribos — que se
interligam sob a forma de redes, compondo uma multiplicade infinita,
ao menos em potencialidade, de novas socialidades, onde o sensível, o
lúdico, o vivido, a imagem e o estético se conjugam na
configuração de um novo modo de experiência do ser no mundo, que
privilegia não mais a Unidade — no partido, em Deus, etc. — mas
as pluralidades de vivências partilhadas, nas quais conta mais a re-ligação
do que qualquer objetivo, finalidade ou intenção.
A instauração
desse quadro societário polifônico e polissêmico pode ser
a chave para uma compreensão mais alegre e generosa desses
tempos de transição.
(*) Léa
Freitas Perez é professora do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG.
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