Artigo (Edição nº 12)

>> "Dionísio nos trópicos: festa religiosa e barroquização do mundo - Por uma antropologia das efervescências coletivas", por Léa Freitas Perez


Resumo:

A festa é uma presença constante e marcante em nossas vidas. Afinal, não se diz que a vida é uma festa ou que uma festa vale uma vida? Não se diz também, sobretudo num país como o Brasil que se tem por festeiro e disso muito se ufana, que existe excesso de festa ou falta de festa? Afinal, não somos o país do carnaval, do futebol e do samba? Diz-se mesmo que o Brasil não dá certo porque, ao viver fazendo festa, trabalha muito pouco.
A festa também se faz presente na literatura antropológica. Dificilmente deixamos de encontrar uma referência a ela, seja de modo direto, seja de modo indireto. Todavia, é uma
presença paradoxal: uma espécie de hóspede não convidado que irrompe porta a dentro, trazendo, aliás como é próprio da festa, a des-ordem e a con-fusão, de modo a não se saber
muito bem o que fazer com ela, como tratá-la. Mesmo que constantemente referenciada, geralmente não lhe é atribuído o estatuto de objeto analítico, uma vez que ela aparece como
uma mera ilustração de certas excentricidades da vida social, ou como elemento descritivo de rituais, esses, sim, tomados como objetos privilegiados. Aparece também - e aqui existe uma clara confluência entre a literatura antropológica e um certo senso comum - como folclore. Ou seja, a festa é vista como um mero divertimento das ditas classes populares, ou, confundindo-se com esse último, como sobrevivência de certos arcaísmos tradicionais. Desse modo, é congelada no tempo - num tempo findo - e reduzida a uma espécie em extinção, a um objeto eminentemente exótico que pode ser objeto de nobre trabalho de salvamento - em nome da História e da Memória - servindo, assim, a explorações políticas e comercias de toda ordem, bem ao gosto dos sempre vivos
colecionadores de borboletas. Felizmente, essa tendência parece estar-se modificando de uns tempos para cá, com a multiplicação de trabalhos que tomam a festa como objeto.
Neste texto proponho -me regastar a idéia de festa, sobretudo da festa à brasileira, tratando-a como forma lúdica de sociação e como um fenômeno gerador de imagens multiformes da
vida coletiva, buscando mostrar como o vínculo social pode ser gerado a partir da poetização e da estetização da experiência humana em sociedade. Para tanto, tomo como objeto empírico de reflexão a festa do Divino Espírito Santo e a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul) no século XIX.
Minha intenção não é fazer nenhuma espécie de tipologia da festa, muito menos ater-me a seus aspectos empíricos, i.e., a seu conteúdo manifesto, mas, sim, pensá-la como uma
forma, como uma forma de sociação. Aplicando a noção de forma de Simmel e parafraseando Lévi-Strauss, o que intento é mostrar que a festa não é somente boa para dela
se participar, é também boa para pensar, pensar os fundamentos do vínculo coletivo, o que faz sociedade.

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Sobre a autora:


Léa Freitas Perez
, antropóloga, professor adjunto do Departamento de Sociologia e Antropologia da FAFICH - UFMG.   

 


>> "Olha Quem Vem para Jantar: interpretações gustativas em redor do porco", por Sandra Maria Cristino Nogueira


Resumo:

O artigo pretende ser uma reflexão sobre o acto de matar um animal- porco-prepará-lo, ingeri-lo e sociabilizar.
À volta destes parâmetros, analisam-se mitos, tabus, crenças e comportamentos relacionados com a carne de suíno, mas também a relação que se estabelece entre o Homem
e este animal doméstico, não só em Portugal, como em muitas outras regiões europeias.
Momens e mulheres têm tarefas específicas e cada um dos géneros não interfere na actividade do outro. Restricções e condicionantes em cada um dos casos são igualmente
mencionadas e interpretadas.

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Sobre a autora:

Sandra Nogueira é licenciada em Antropologia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, com especialização em Gestão do Patrimônio e Acção Cultural.



 

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